Rastreabilidade do ouro avança no Brasil e reforça combate à lavagem de dinheiro
Uso de tecnologia para monitorar a cadeia do metal amplia transparência, reduz fraudes e muda a forma como empresas e investidores lidam com ativos físicos
Uso de tecnologia para monitorar a cadeia do metal amplia transparência, reduz fraudes e muda a forma como empresas e investidores lidam com ativos físicos
A aprovação, pela Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, de uma proposta que prevê o uso de blockchain para rastrear toda a cadeia do ouro no Brasil marca uma mudança relevante no controle de ativos e no combate à lavagem de dinheiro. A medida exige registro da origem e da circulação do metal, elimina a presunção de boa-fé nas transações e amplia a responsabilidade de quem atua no setor.
Murillo Oliveira, especialista em investimentos e estruturação financeira internacional e Head of Treasury da Saygo, afirma que a mudança aproxima o país de um novo padrão de controle baseado em dados e rastreabilidade.
Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam aumento nas comunicações de operações suspeitas envolvendo setores ligados à mineração e metais preciosos, enquanto investigações da Polícia Federal têm identificado o uso do ouro como instrumento de ocultação de recursos ilícitos.
“A blockchain cria um registro que não pode ser alterado ao longo do tempo. Isso muda a lógica do mercado, porque a confiança deixa de depender da declaração das partes e passa a estar ancorada em dados verificáveis”, afirma.
A proposta altera um dos pilares históricos do setor, que permitia a comercialização do ouro com base na autodeclaração de origem. Com a rastreabilidade digital, cada etapa passa a ser registrada, o que reduz brechas para fraudes e dificulta a circulação de material de origem ilegal.
“O impacto não é apenas regulatório. Existe uma mudança estrutural na forma como o ouro passa a ser tratado como ativo. Ele continua sendo uma proteção patrimonial, mas agora com uma camada adicional de controle e transparência”, diz.
A transformação acompanha um movimento global de digitalização de ativos físicos, com uso crescente de tecnologias como blockchain para registrar e acompanhar cadeias produtivas. Esse avanço tende a elevar o nível de exigência do mercado, especialmente em operações internacionais, onde critérios de compliance e origem ganham peso.
“Transparência deixa de ser diferencial e passa a ser requisito. Empresas que não se adaptarem a esse novo padrão podem perder acesso a mercados e enfrentar restrições operacionais”, afirma.
Na prática, a nova exigência impacta empresas de mineração, distribuidoras, instituições financeiras e investidores. A rastreabilidade tende a melhorar processos de auditoria, reduzir riscos jurídicos e criar um ambiente mais seguro para negociação do metal.
O especialista aponta cinco cuidados para empresas se adaptarem à nova rastreabilidade do ouro
A adoção da tecnologia exige mais do que implementação técnica. Empresas precisam revisar processos, integrar sistemas e fortalecer a governança para atender às novas exigências.
Entre os principais pontos de atenção, destacam-se:
• Estruturação de dados confiáveis
A rastreabilidade depende da qualidade das informações inseridas. Processos internos inconsistentes comprometem a credibilidade de toda a cadeia.
• Escolha de parceiros especializados
Fornecedores com experiência em tecnologia e regulação reduzem riscos operacionais e garantem aderência às normas.
• Integração com sistemas existentes
A solução deve se conectar a sistemas de gestão, controles logísticos e financeiros para evitar falhas e retrabalho.
• Adequação regulatória contínua
Mudanças na legislação exigem atualização constante dos sistemas e revisão periódica dos processos.
• Monitoramento e auditoria recorrentes
A rastreabilidade só gera valor quando acompanhada de validação contínua e análise dos dados registrados.
“O erro mais comum é tratar a blockchain como uma solução isolada. Ela precisa estar conectada à operação real da empresa, aos controles internos e à governança. Caso contrário, não resolve o problema”, afirma.
Para investidores, a mudança também tende a alterar a percepção de risco. Ativos com origem comprovada devem ganhar mais relevância, enquanto operações sem rastreabilidade podem enfrentar desvalorização ou restrições. “A tendência é que o mercado passe a precificar não apenas o ouro em si, mas a qualidade da sua origem. Isso cria uma nova dinâmica de valor e influencia diretamente decisões de investimento”, diz.
O avanço da rastreabilidade do ouro insere o Brasil em um movimento mais amplo de integração entre ativos físicos e infraestrutura digital. A medida amplia a capacidade de controle, reduz brechas para ilegalidades e eleva o padrão de transparência em um setor estratégico. Ao mesmo tempo, exige das empresas adaptação rápida a um ambiente mais rigoroso, no qual tecnologia, governança e compliance passam a atuar de forma integrada.
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