Apesar de movimentar um mercado relativamente pequeno, o neodímio sustenta cadeias industriais trilionárias. A concentração da oferta e a falta de previsibilidade transformam um insumo barato em risco sistêmico.
O mercado global de terras raras opera sob uma distorção econômica pouco discutida fora dos círculos especializados: o preço do neodímio e dos ímãs de alta performance não reflete o impacto real que esses materiais têm sobre a indústria moderna. Embora essenciais para motores elétricos, automação industrial, geração de energia e equipamentos médicos, esses componentes seguem tratados como custo marginal — até o momento em que o fornecimento é interrompido.
Segundo dados do U.S. Geological Survey (USGS), o mercado global de terras raras movimenta algo entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões por ano, um valor modesto quando comparado às cadeias industriais que dependem diretamente desses insumos. Para efeito de comparação, apenas o setor global de automação industrial movimenta mais de US$ 300 bilhões anuais, enquanto a indústria automotiva ultrapassa US$ 3 trilhões.
Essa assimetria ajuda a explicar por que o risco associado ao neodímio costuma ser subestimado. “O mercado olha para o preço unitário do ímã e ignora o custo sistêmico”, afirma Rodolfo Midea, especialista em importação de ímãs de neodímio. “Quando falta, o impacto não aparece na planilha de compras, aparece na paralisação da produção.”
A concentração da oferta agrava esse cenário. Hoje, a China responde por cerca de 60% da produção global de terras raras e aproximadamente 90% da fabricação de ímãs de neodímio, segundo o USGS. Isso cria um mercado altamente eficiente do ponto de vista de custo, mas extremamente frágil do ponto de vista de risco.
Em momentos de tensão na cadeia, essa fragilidade se materializa rapidamente. Entre 2020 e 2022, gargalos logísticos e restrições de oferta provocaram variações superiores a 200% nos preços de determinados ímãs, enquanto indústrias altamente automatizadas enfrentaram atrasos e interrupções. Em setores como automotivo, energia e manufatura avançada, o custo de parada de uma linha pode chegar a milhões de reais por dia, superando em muito o valor do insumo.
No Brasil, o impacto é ainda mais sensível. Estimativas do setor indicam que mais de 90% dos ímãs de neodímio utilizados pela indústria brasileira são importados, o que expõe empresas não apenas à volatilidade internacional, mas também a variações cambiais e rupturas logísticas.
“O preço do neodímio parece baixo porque o mercado não precifica o risco”, diz Midea. “Quando o risco se materializa, o impacto é desproporcional. É aí que fica claro que não estamos falando de um insumo comum, mas de infraestrutura invisível da indústria.”
Para economistas industriais, a discussão sobre terras raras precisa incorporar o conceito de custo econômico ampliado, que considera o impacto da interrupção produtiva, da perda de contratos e da quebra de previsibilidade. Enquanto isso não acontecer, o mercado seguirá subestimando um dos pilares mais sensíveis da economia moderna.
Cadastre seu email e receba nossos informativos e promoções de nossos parceiros.
Votorantim Cimentos avança em seu programa de investimentos de R$ 5 bilhões entre 2024 e...
BNDES aprova R$ 715,9 milhões para modernizar a produção de alumínio da CBA
St George adquire área para a planta de processamento de nióbio e terras raras do Projet...
Vale Base Metals anuncia consórcio e investimento de até US$ 200 milhões na mina de Tho...
Conexão Mineral - Notícia mais lida na Conexão Mineral em Janeiro de 2026
Women in Mining Brasil - Elas movimentam a mineração